Um dos maiores levantamentos já realizados sobre o uso de cannabis medicinal por pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) encontrou redução de sintomas de ansiedade e depressão após o início do tratamento. Os resultados fazem parte de um relatório publicado em outubro de 2026 pelo Minnesota Office of Cannabis Management (OCM), órgão responsável pela gestão do programa de cannabis medicinal do estado norte-americano.
A análise reuniu dados de 1.811 pacientes adultos e pediátricos que ingressaram no programa entre agosto de 2018 e julho de 2024 com o autismo como condição qualificadora. Desse total, 1.645 chegaram a adquirir cannabis medicinal e foram incluídos nas análises de acompanhamento.
O estudo avaliou a experiência dos pacientes a partir de registros de certificação, compras realizadas no programa e avaliações preenchidas pelos próprios pacientes antes das compras. Entre os sintomas analisados estavam ansiedade, depressão, alterações do sono, fadiga, dor, náusea, vômitos e falta de apetite.
A ansiedade apareceu como o sintoma mais comum entre os participantes. 88,3% dos pacientes apresentavam níveis moderados a graves de ansiedade no início do acompanhamento.
Entre esse grupo, 57% apresentaram redução de pelo menos 30% na pontuação de ansiedade nos primeiros quatro meses após a primeira compra de cannabis medicinal.
O resultado também foi observado no acompanhamento posterior. Entre os pacientes que apresentaram melhora inicial, 67,4% conseguiram manter a redução dos sintomas por pelo menos mais quatro meses. Considerando todo o grupo com ansiedade moderada a grave, 34,3% alcançaram e mantiveram uma redução de pelo menos 30% durante esse período.
No relatório, uma redução de 30% ou mais na pontuação dos sintomas foi utilizada como referência para uma mudança clinicamente significativa.
Os resultados não ficaram restritos à ansiedade. Entre os pacientes que apresentavam sintomas moderados a graves, 63,4% relataram redução de pelo menos 30% nos sintomas de depressão nos primeiros quatro meses.
Quando considerado também o período de manutenção da melhora, 41,3% apresentaram redução de pelo menos 30% nos sintomas de depressão e conseguiram mantê-la por quatro meses adicionais.
Alterações do sono e fadiga também apresentaram resultados relevantes. 37,3% dos pacientes com distúrbios do sono moderados a graves e 34,4% daqueles com fadiga moderada a grave conseguiram alcançar e manter uma redução clinicamente significativa dos sintomas.
Um dos aspectos relevantes do levantamento é a diversidade etária da população analisada. A idade média dos pacientes no momento da entrada no programa foi de 20 anos, com participantes entre 2 e 75 anos.
O relatório também identificou diferenças nos padrões de produtos adquiridos de acordo com a idade. Entre pacientes menores de 18 anos, produtos administrados por via enteral, como cápsulas, comprimidos, gomas e soluções orais, representaram 85,3% das compras. Já entre adultos, produtos para inalação, como flores e produtos vaporizados, corresponderam a 68% das aquisições.
Os pacientes menores de 18 anos utilizaram principalmente produtos equilibrados ou com maior proporção de CBD em relação ao THC, enquanto os adultos apresentaram maior utilização de produtos com predominância de THC. O relatório ressalta, entretanto, que os pacientes não informavam ao programa a quantidade utilizada a cada administração nem a frequência de uso.
Além dos sintomas gerais, o estudo analisou uma pequena parcela dos participantes com menos de 26 anos por meio do Aberrant Behavior Checklist, versão 2 (ABC-2), questionário utilizado para avaliar comportamentos associados ao TEA.
Apenas 46 pacientes responderam ao questionário tanto no início quanto após 10 semanas. Nesse grupo, houve redução estatisticamente significativa nas cinco dimensões avaliadas: irritabilidade, hiperatividade, letargia, comportamentos repetitivos e fala inadequada.
O próprio relatório, porém, destaca que esse resultado deve ser interpretado com cautela devido ao tamanho reduzido da amostra, que representou apenas 3,9% da população elegível para essa análise.
O que os resultados mostram?
Os dados ampliam as evidências sobre o uso de cannabis medicinal em pessoas com TEA, especialmente para sintomas como ansiedade, depressão, alterações do sono e fadiga. O levantamento de Minnesota ganha relevância pelo número de pacientes analisados e por refletir a experiência de um programa real de cannabis medicinal.
Os resultados também reforçam a importância de novas pesquisas que avaliem diferentes formulações, doses, perfis de canabinoides e desfechos clínicos. A ampliação dessas evidências pode contribuir para uma compreensão mais precisa do uso dos canabinoides no TEA e para decisões terapêuticas cada vez mais individualizadas e baseadas em evidências.
Referências
- Minnesota Office of Cannabis Management (OCM). Autism Spectrum Disorder Report: Medical Cannabis Program. Minnesota, 2026.
- Minnesota Office of Cannabis Management (OCM). Medical Cannabis Program: Autism Spectrum Disorder Report. Publicado em 1º de outubro de 2026.
- Ganjapreneur. Georgia regulators approve medical cannabis delivery rules, Study shows cannabis effective against anxiety & depression, and more. 5 de outubro de 2026.